Todo dia 15 de agosto, enquanto a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora, milhares de católicos começam uma contagem silenciosa: faltam 40 dias para a festa de São Miguel Arcanjo. E, quase sempre, junto com o início dessa devoção vem um comentário repetido em grupos de oração, paróquias e redes sociais: “prepare-se, porque as provações vêm.”
A frase assusta alguns e atrai outros. Mas de onde ela saiu? Existe fundamento histórico? E o que a Igreja realmente ensina sobre esse período?
O que é a Quaresma de São Miguel
A chamada Quaresma de São Miguel é um período de 40 dias de oração, jejum e penitência que vai de 15 de agosto (Assunção) até 29 de setembro (festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael).
Não é uma quaresma litúrgica, como a que antecede a Páscoa. É uma devoção popular, de origem franciscana, nunca imposta pela Igreja, mas praticada há oito séculos por leigos, religiosos e ordens inteiras.
O número 40 não é aleatório. Ele ecoa os 40 dias de Moisés no Sinai, os 40 dias de Elias caminhando até o Horeb e os 40 dias de Cristo no deserto. Períodos de purificação que, invariavelmente, envolveram confronto.
A origem: São Francisco no monte Alverne
A prática nasce de um episódio bem documentado na vida de São Francisco de Assis. Em 1224, o Poverello subiu ao monte Alverne (La Verna), na Toscana, para fazer um retiro de 40 dias em honra a São Miguel Arcanjo.
São Boaventura, na Legenda Maior, e Tomás de Celano, na Vida Segunda, narram esse retiro. Os Fioretti (Florinhas de São Francisco), compilação do século XIV, dedicam um bloco inteiro de capítulos às “Considerações sobre as Sagradas Chagas” e descrevem o que aconteceu ali.
Foi durante esse jejum, por volta de 14 de setembro — festa da Exaltação da Santa Cruz —, que Francisco recebeu os estigmas. As chagas de Cristo impressas em seu corpo.
Os mesmos relatos contam que o retiro foi marcado por lutas interiores intensas, ruídos noturnos, tentações e uma escuridão espiritual que precedeu a visão do serafim crucificado.
Por que se fala tanto em provações
É daí que vem a fama. A tradição franciscana associou o período a um combate espiritual mais evidente, justamente porque o próprio fundador atravessou algo assim antes de receber a maior graça de sua vida.
A lógica devocional é simples: quando alguém se coloca deliberadamente sob a proteção do príncipe da milícia celeste, entra num terreno de batalha. E batalha, por definição, tem resistência do outro lado.
O Padre Gabriele Amorth, exorcista-chefe da diocese de Roma por décadas, repetia em seus livros que a intensificação da vida de oração costuma provocar reação. Não como castigo, mas como sinal de que algo está mudando.
O que dizem os devotos
Os relatos que circulam em comunidades de devoção seguem um padrão curioso. Raramente falam de fenômenos espetaculares. Falam de vida cotidiana virando de cabeça para baixo.
- Discussões familiares que estouram do nada por motivos banais.
- Sonolência ou distração exatamente na hora da oração.
- Problemas financeiros ou de saúde que aparecem logo na primeira semana.
- Vontade súbita de abandonar a devoção pela metade.
- Reencontro com pecados antigos que pareciam superados.
Rosana, de Belo Horizonte, contou à sua paróquia que na terceira semana de 2023 quase desistiu: “Eu, que nunca tive insônia, passei dez dias acordando às três da manhã. Terminei os 40 dias, e no dia 29 fui à confissão depois de sete anos afastada.”
Marcos, coordenador de um grupo de oração no interior de São Paulo, resume assim: “Não é que o inferno se solta. É que a gente enxerga o que estava escondido.”
Cuidado com a superstição
Aqui entra o discernimento que a Igreja pede. O Catecismo, nos números 391 a 395, ensina que o poder de Satanás é real, mas limitado, permitido por Deus e jamais equiparável ao dele.
Os números 2110 a 2117 do mesmo Catecismo condenam a superstição, definida como o desvio do sentimento religioso que atribui eficácia mágica a práticas legítimas.
Rezar a Coroa Angélica esperando blindagem automática contra problemas é superstição. Rezá-la para crescer em confiança, humildade e obediência é devoção.
Nem toda dificuldade entre agosto e setembro é ataque espiritual. Contas atrasam, corpos adoecem e relacionamentos entram em crise o ano inteiro.
Como viver bem esses 40 dias
A prática tradicional é sóbria: jejum ou abstinência em alguns dias da semana, oração diária a São Miguel, confissão e Eucaristia frequentes, alguma penitência concreta escolhida com o confessor.
Muitos rezam a Coroa Angélica, devoção de nove saudações aos coros angélicos, ligada às revelações à carmelita portuguesa Antónia d’Astónaco no século XVIII e enriquecida com indulgências por Pio IX em 1851.
Outros usam a oração composta pelo Papa Leão XIII em 1886, aquela que pede a São Miguel que nos defenda no combate.
O objetivo não muda: chegar ao dia 29 de setembro mais perto de Deus do que se estava em 15 de agosto. Se houve provação no caminho, ela cumpriu sua função quando produziu conversão, e não medo.































